Lojas de luxo de Buenos Aires ficam vazias por falta de produtos

Grifes internacionais estão deixando a Recoleta, bairro que já foi considerado um dos melhores do mundo para as compras

Gabriela Borges, especial para o iG, de Buenos Aires |

Gabriela Borges
Loja da Ermenegildo Zegna, na Avenida Alvear: portas fechadas devido à falta de produtos
O bairro da Recoleta é conhecido como um pedacinho “parisiense” de Buenos Aires, por suas mansões, jardins e parques em estilo francês. A Avenida Alvear, que concentra lojas de grifes famosas, galerias de arte e palacetes históricos, já foi considerada um dos cinco melhores destinos do mundo para compras – e um público sempre fiel por ali é o brasileiro.

Mas as barreiras a importações, impostas recentemente pelo governo de Cristina Kirchner, têm causado um abalo nas elegantes vitrines da região.

Leia também: Entenda as barreiras a importações

Jornais argentinos noticiam que um dos mais emblemáticos negócios do bairro, a maison da americana Polo Ralph Lauren, corre o risco de ser fechada. Instalada num palacete histórico da belle époque tombado pelo governo, a marca vende produtos 100% importados.

Sarina Porro, diretora de marketing da empresa, disse ao iG que por enquanto são só rumores e não quis comentá-los. Mas notícias recentes dão conta que a marca estuda fechar as portas na Rua Florida, em um shopping e possivelmente na Avenida Alvear. Também foi publicado que a marca francesa Hermès cogita deixar o país.

No fim de abril, a italiana Ermenegildo Zegna, de roupas masculinas, esvaziou as prateleiras de sua loja de 800 metros quadrados na avenida “parisiense” da Recoleta. Os clientes foram surpreendidos com um cartaz na vitrine avisando que, por falta de produtos das novas coleções, a grife passaria a atender somente na loja do Shopping Patio Bullrich. Em comunicado oficial, a direção diz que a decisão teve de ser tomada pelas dificuldades encontradas com as restrições às importações, mas que está tentando buscar soluções para continuar atendendo os clientes.

- Veja também: Medida argentina trava exportação da indústria têxtil brasileira

A gerente de uma loja de roupas e sapatos em couro da Avenida Alvear conta que, apesar de vender produtos nacionais, a fábrica precisa de materiais importados – e eles estão em falta. Numa loja de artigos italianos, a gerente – nenhuma das duas quis se identificar, por medo de retaliação – afirma que até 31 de dezembro os estoques estavam em ordem, mas agora tem pedidos parados na alfândega. A apreensão dos vendedores, quando são procurados pela imprensa, é nítida. O iG entrou em contato com responsáveis pelas principais marcas estrangeiras da Avenida Alvear, mas nenhum quis falar ou dar detalhes sobre o assunto.

Nas lojas que aparentam manter a normalidade, como a joalheria Cartier e a francesa Luis Vuitton, os vendedores ainda não sabem o que pode acontecer, mas o ar é de desconforto e preocupação. Para evitar quedas nas vendas sem as peças das novas coleções, as grifes têm oferecido descontos.

Gabriela Borges
Maison da americana Polo Ralph Lauren, símbolo do bairro, que corre o risco de ser fechada

Em segmentos menos luxuosos, mas que também dependem de importações, a falta de produtos é ainda mais evidente, atesta Marcelo Sorzana, consultor de marketing para marcas internacionais. Está difícil encontrar desde pneus para ônibus, fraldas, eletrônicos, remédios, material de construção e produtos de marcas como Pantene, Nike, Adidas, Lacoste, Zara e Levi’s, afirma o especialista.

Tudo mais caro
A Avenida Alvear tornou-se símbolo de prosperidade depois da crise econômica argentina de 2001 (aquela dos panelaços), recebendo consumidores nacionais endinheirados e muitos turistas estrangeiros. Mas, além da questão das importações, uma mudança tem ocorrido nos últimos meses. Ainda que os índices oficiais de inflação sejam pouco confiáveis, é fácil notar que os preços subiram. E o número de turistas de alto poder aquisitivo caiu, inclusive o de brasileiros.

A paulistana Priscila Feres foi com o marido a Buenos Aires em março. Eles se hospedaram num hotel da Avenida Alvear e, apesar de o objetivo da viagem não ser fazer compras, era inevitável dar uma olhada nas lojas da região. Mas os preços altos surpreenderam. “Achei tudo tão caro quanto em São Paulo. Fui para passear, mas é claro que compraria algumas coisas. No fim, acabei comprando absolutamente nada”, diz.

- Carrefour está perto de comprar rede de supermercados argentina

Em abril, Eduardo Justiniano e Andréa Rodrigues, também paulistas, estiveram em Buenos Aires pela segunda vez. Na primeira, há dois anos, voltaram com as malas lotadas de sapatos, roupas e outras lembranças. “Os preços eram realmente melhores, algumas coisas eram até 50% mais baratas”, lembra Eduardo. Desta vez, se depararam com uma surpresa: tudo está caro na capital portenha, do táxi às roupas de marcas americanas. “Não vale mais à pena vir para fazer compra. Sair para jantar ainda fica mais em conta do que em São Paulo, mas achei as roupas muito caras”, diz Andréa.

A história do casal paulistano tem se repetido com frequencia em Buenos Aires. Quem mora na cidade está acostumado a ver brasileiros por todos os lados, fazendo compras, principalmente. Mas os turistas são um dos que mais têm sofrido os impactos da inflação e das novas políticas de protecionismo econômico da Argentina.

Desde fevereiro, os importadores locais passaram a ter de solicitar uma autorização prévia ao órgão fiscal do governo para comprar mercadorias estrangeiras. As medidas tentam reagir ao crescimento das importações, que subiam em média 30% ao ano até setembro. “A reserva de dólares do Banco Central começou a diminuir e o governo decidiu frear as importações, para fazer com que a balança comercial não agrave a queda”, explica o analista econômico Ricardo Delgado.

As medidas começaram a ser tomadas logo após a reeleição de Cristina Kirchner e surpreenderam muitas empresas. Apesar disso, muitos argentinos acreditam que a política protecionista é correta. Espera-se agora que agora o governo comece a agilizar o processo de importação, com menos burocracia para liberar os pedidos. “A crise deve ser aproveitada para que dela saiam bons negócios”, afirma Marcelo Sorzana, consultor de uma empresa especializada em moda. "Em algum momento ela vai passar e quem tiver investido no país vai estar bem preparado."

Segundo o jornal "Clarín", o consumo de luxo na América Latina teve um avanço anual de 15% nos últimos dez anos. Os líderes da região, nesse segmento, são México e Brasil. A Argentina, apesar de ter consumidores com potencial para gastar, apresenta cifras estancadas de crescimento econômico e fica bem abaixo no ranking.

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